Se eu não fosse insuficiente… Eu era além

Um pouco mais de sol – eu era brasa,

Um pouco mais de azul – eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa…

Se ao menos eu permanecesse aquém

Mário de Sá Carneiro

Vê-se aquém quando não se sente suficientemente amado(a) numa relação embora tudo pareça encaixar, mas, no seu íntimo, pressente que algo vai correr mal:  talvez não se sinta merecedor(a) por lhe faltar um pouco mais de formosura, graça, inteligência, riqueza, brilho….

Sente-se aquém quando nada lhe chega para se sentir feliz embora tenha o emprego de sonho, a vida que escolheu, uma saúde impecável, uma boa situação financeira ou a família perfeita.

Há sempre algo que falta…

Há sempre algo que falta e essa expectativa de carência torna-o(a) inseguro(a),  diferente, “avariado(a), estragado(a), desconectado(a) do que o rodeia e profundamente só, embaraçado(a) nas suas dúvidas, incertezas e insuficiências.

Porque se sente assim?

Será que algo aconteceu quando ainda não sabia quem era e viveu a ausência, descuido ou maus tratos de quem supostamente o(a) devia amar incondicionalmente. Terá herdado esse legado da sua família em que muitos também sempre se sentiram “pobres”, insuficientes?

Será que foi quando era maltratado(a) pelos seus pares por não ser suficientemente bonito(a), magro(a) ou apenas porque era diferente? Ou terá sido aquela professora que em tempos o(a) humilhou perante todos revelando as suas incapacidades ou maiores receios.

Talvez se sinta aquém porque apanhou sovas monumentais pela sua “rebeldia”; porque ralhavam constantemente consigo sem nunca saber bem porquê;  ou simplesmente o(a) ignoravam: a sua mãe estava permanentemente ocupada em admirar-se a si própria, ou requeria com avidez uma atenção e valorizações permanentes;   o seu pai ausentava-se num trabalho que dizia exigente e árduo, ou entre distrações que o aliviavam da tensão familiar e, quando estava presente era para lhe ensinar que a vida era difícil e que se queria ser alguém teria que trabalhar muito ou ser irrepreensível.

Nunca nada bastava…

 

Poderá ter-se sentido transparente por ter irmãos que eram mais populares, ou teve que seguir normas inflexíveis porque o “amor duro” fortalece, ou simplesmente nunca sabia se fazia algo bem porque nunca nada era suficiente: se tinha um 19 tinha que ter um 20, se fazia algo bem, tinha que aprender mais artes e ofícios pois nunca nada bastava.

Sente que ressoam “vozes” na sua cabeça que confirmam algo que sempre ouviu: “não prestas”,  “nunca serás ninguém”, “o teu corpo é horrível”, “és feio(a)”… Na verdade, sempre soube que era alvo de uma terrível profecia de desamor, indiferença, distância, falta de cuidados ou sorte.

Cada pessoa é única

Não aprendeu que não é uma moeda de oiro que a todos agrade e que só pode comparar-se o que é comparável e que cada pessoa é única e, por isso, incomparável por muito semelhante que seja.

A importância de saber apreciar quem é

Não aprendeu, que o ótimo é inimigo do bom, que a aspiração à perfeição é um caminho e não uma meta, e que o seu valor enquanto pessoa não depende do que faz, e como faz, mas de quem é. Não percebeu que a sua única falta de valor está em não saber apreciar quem é. Afinal, como digo no meu livro “STOP – 50 Estratégias para Mulheres sem tempo”, se não gostar de si quem gostará?

Vá além e diga para si que é uma pessoa demasiado complexa para ser avaliada apenas num determinado aspeto, aprecie-se incondicionalmente e fale consigo como se estivesse a confortar a pessoa de quem gosta mais neste mundo.

Deixe de comparar-se com os outros, pois as comparações que não o(a) ajudam só servem para o(a) excluir e se sentir ainda mais “aquém”.

Pode não ter experimentando um olhar do outro amável, aceitante, único e incondicional na sua história de relações familiares, amorosas ou de amizade autêntica, mas se o seu desvalor foi forjado no desamor é sempre tempo de descobrir e experimentar que é através do amor que se nasce e renasce vezes sem fim, que é no poder contribuir para que outros se possam sentir amados, felizes, melhores… que a sua pobreza desaparece, pois descobre finalmente a sua missão na vida, e mesmo sendo humilde, pois é feito(a) de terra, seja nobre pois também é feito(a) de estrelas. E nesse momento, só nesse instante, com um golpe de asa, atinge o além.

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