Empoderamento feminino: uma questão que a todos interessa

“Ajuda-me para que eu possa ajudar-te, para que juntos possamos subir a montanha”

Provérbio grego

Porque é importante o empoderamento feminino? O que significa e quais as suas implicações na vida de cada um? Qual pode ser o seu contributo para que não existam limitações nas suas oportunidades ao nível pessoal, profissional e na liderança, pela única razão de se ser mulher e não homem?

O que significa empoderamento feminino[1]?

É uma mulher com poder, no sentido que aqui falamos, se não tem que trabalhar mais que os seus colegas homens para mostrar o que vale;  se constata que tem as mesmas oportunidades de desenvolvimento financeiro e profissional, e se pode ocupar os mesmos cargos e desempenhar papéis que, normalmente, têm uma maior presença masculina: na política, na cultura, nos negócios. E se ocupa o mesmo tipo de lugares, não ser discriminada com comentários sexistas, ou se adota um comportamento de acordo com a sua feminilidade, ou ser excluída, “naturalmente” dos acontecimentos sociais e/ou de lazer por não pertencer ao clube, mesmo que pertença à mesma equipa.

Sempre existiram profissões que associamos mais a um sexo ou outro, daí, por vezes, se falar em profissões femininas – todas aquelas que são ocupadas por mulheres – ou profissões masculinas, em que acontece o contrário. Atividades profissionais que pertencem ao sector da educação, saúde são associadas a profissões femininas e profissões masculinas incluem trabalhos nas áreas das finanças, tecnologias e engenharia entre outros.

Achamos natural que uma mulher seja enfermeira, bailarina, professora, secretária, mas já estranhamos ou resistimos a que um homem desempenhe estas funções. Habituámo-nos a que sejam, normalmente, os homens donos das empresas ou diretores gerais, engenheiros, programadores de informática, entre outros e sejam as mulheres que naturalmente cuidam do “lar”, ou então são “ajudadas” em algo que é da responsabilidade de todos.

Muitas dessas diferenças podem decorrer de interesses individuais, ou características individuais, o que é legítimo que assim seja. O que necessita de reflexão é se a maior presença masculina em funções que são mais bem pagas, ou o facto de em muitos casos as mulheres receberem menos do que os homens, ainda que realizem o mesmo trabalho e tenham um desempenho equivalente, não se deve à existência de condições de partida desfavoráveis para um dos lados sem que existam, caso seja o caso, medidas compensatórias com vista a tornar possível as possibilidades.

Ainda hoje as mulheres precisam de trabalhar mais para mostrar o que valem, continuam a assegurar a maior parte das tarefas relacionadas ao cuidado da casa, dos filhos e dos mais velhos e nem sempre conseguem conciliar a maternidade e a carreira.

Nos últimos anos começou a surgir uma atenção crescente à implementação de práticas e políticas governamentais e ao nível empresarial que promovam a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres e que forneçam mais poder no domínio público às mulheres.

Qual a relevância de se falar no empoderamento feminino?

É importante falar neste poder feminino porque a igualdade entre homens e mulheres é um direito humano fundamental e inviolável e é valor quase universal. Contudo a maior parte das mulheres continuam a ter dificuldade em desempenhar determinadas profissões e a ocupar lugares de alta direção, ainda que tenham muitas vezes uma maior qualificação e experiência. 

Algumas das diferenças de que falámos foram atenuadas nos últimos anos em particular nas geração das pessoas que nasceram entre 1980-1990 (os millennial), no entanto, ainda se constata uma diferença significativa entre o número de homens que desempenham funções de chefia, e que têm salários mais elevados, do que as mulheres. 

Interessa que se quebrem as barreiras que limitam as possibilidades de acesso a qualquer cidadão, independentemente do sexo, e se desenvolvam medidas que possam eliminar ou minimizar o efeito das diferenças de papéis existentes entre homens e mulheres determinadas por razões que hoje em dia já não fazem sentido.

Ao contrário do passado, são muitas as famílias em que os dois que trabalham. São uma minoria as situações em que as mulheres trabalham apenas em casa (trabalho não remunerado). Por isso, interessa quebrar o estereótipo de o trabalho masculino ser mais adequado à esfera pública, com maior grau de autonomia e de liderança, enquanto o trabalho feminino ser associado ao universo doméstico, à realização de atividades de prestação de cuidados ou de subordinação.

Existem diferenças motivadas por características individuais e interesses (há uma maior inclinação das mulheres por profissões com menor destaque profissional pela importância que dão à vida privada ou pública, ou à vida familiar ou profissional) e em termos da forma como o trabalho tem estado organizado “por sexos”: homens na esfera pública e mulheres na esfera privada.

Qual a relevância do empoderamento feminino?

Para além de se tratar de um direito fundamental, diversos estudos demonstram os efeitos positivos na sociedade, nos países que concedem um maior poder às mulheres nomeadamente no que diz respeito à diminuição da pobreza e corrupção e melhoria dos resultados financeiros.

O empoderamento feminino diminui a pobreza e a corrupção

De acordo com um estudo do Banco Mundial sobre Desenvolvimento e Género nos países onde se verifica uma promoção dos direitos das mulheres, existe um crescimento económico mais rápido e há menor corrupção do que nos países onde isso não ocorre.

As empresas que promovem a igualdade de oportunidades têm melhores resultados

Um estudo, efetuado pela empresa de consultoria da McKinsey & Co., conclui que as empresas que apostavam em práticas de igualdade de oportunidades são mais competitivas. Este e outros demonstram que a conjugação dos interesses individuais e coletivos é benéfica para os negócios e desenvolvimento da sociedade.

Qual a relação entre empoderamento feminino e liderança?

A relação existente entre empoderamento feminino e liderança tem pelo menos duas faces. A primeira refere-se à valorização e investimento dos líderes, com maior poder na organização na defesa da igualdade de oportunidades. A segunda diz respeito à diferença de número entre homens e mulheres a ocuparem cargos de direção ou liderança.

Em Portugal, uma entidade que tem desenvolvido um importante trabalho no empoderamento feminino em particular ao nível do incentivo de grupos de aprendizagem, partilha e entreajuda profissional, é a PWN – Professional Women Network, nomeadamente através da criação de um curso de desenvolvimento de liderança inovador, no qual participo e que foi concebido pela especialista em psicopedagogia e consultora da Mindflow, Mónica Rodrigues.

A liderança é uma função que pode ser desenvolvida em pessoas que têm interesse e motivação para tal. Duas práticas que ajudam enormemente o desenvolvimento da liderança, particularmente pelas dificuldades experimentadas, que são normalmente superiores quando se trata de mulheres, são a mentoria e o coaching.

Na mentoria, um profissional com maior experiência orienta, aconselha, sugere ações que promovam o desenvolvimento profissional e da carreira. No caso do coaching, um profissional especializado na arte de questionar, escutar e saber “informar” estabelece uma parceria com alguém que precisa de decidir, desenvolver uma competência ou atingir uma determinada meta, de forma a libertar e aplicar potencial existente. Estas duas práticas, em particular a última, são especialmente importantes para o empoderamento feminino.

Existem questões comuns a todas as pessoas, mas no que se refere a questões de liderança há uma série de dificuldades mais frequentes nas mulheres do que nos homens, nomeadamente questões relacionadas com autoconfiança, “medo”, gestão de conflitos, gestão do tempo, negociação, comunicação e imagem.

O que pode fazer para constituir para esta mudança de desigualdade de oportunidades

Possivelmente ao ouvir falar deste tema pensa ou no papel do Governo, União Europeia, Nações Unidas ou então ao nível das empresas e associações. Torna-se difícil perceber qual pode ser o seu contributo quer seja homem ou mulher. A verdade é que a maior parte das grandes mudanças começam a nível individual. E por isso, não esgotando todas as possibilidades, pode:

  • assumir a divisão, por igual, das tarefas domésticas e cuidado quer com os filhos quer com os mais velhos;
  • fazer mais compras em organizações que são lideradas por mulheres, e menos nas instituições que apresentam práticas discriminatórias;
  • evitar participar ou marcar reuniões, fora dos horários de trabalho ou em momentos que são importantes para o cuidado dos filhos ou família (mesmo que seja à distância).

O empoderamento feminino é um assunto que diz respeito a todos.

O empoderamento feminino não é algo que se determine por decreto (ainda que ajude). Não é um assunto que diga só respeito às mulheres, pois toda a sociedade beneficia; não é um tema apenas do foro político ou institucional; e a sua mudança tem que considerar todos os envolvidos, em particular as aspirações e vontades individuais das mulheres, pois são estas que, em muitos casos, precisam de ter mais oportunidades.

O que significa empoderar no feminino?

Empoderar no feminino significa não participar em conversas ou aceitar práticas, que possam discriminar com base no sexo; implica proporcionar possibilidades equivalentes em termos de educação, instrução e integração social; requer educar os filhos distribuindo por igual as tarefas domésticas e exigindo que todos, por igual, aprendam a servir e ser servidos.

De que forma está a sustentar esta desigualdade? O que realizar hoje para não contribuir para perpetuar a diferença de poderes com base no sexo, em particular no âmbito profissional? Como promover a igualdade de oportunidades? Respeitando as diferenças que possam existir, reconhecendo a sua mais valia e, por isso, assegurar práticas que minimizem o efeito negativo das diferenças.

[1] Referiremos feminino ou “mulher” para designar todos aqueles que se identificam de acordo com o sexo biológico para facilitar a exposição, e pelo facto de as questões apresentadas se adequarem mais a este público.

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